segunda-feira, julho 13, 2015

Zelota: a Vida e a Época de Jesus de Nazaré



O livro "Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré" escrito pelo estudioso Reza Aslan mostra, com uma linguagem clara e acessível, a vida daquele que se tornou o ponto de partida para o nascimento do Cristianismo. O autor ressalta logo de início que deve haver uma separação entre o Jesus Bíblico e o Jesus Histórico, o primeiro é fruto de uma construção teológica com o objetivo de reinventar a trajetória de Jesus para adequá-la à tradição cristã em formação; já o Jesus Histórico deve ser compreendido como um pregador revolucionário que foi crucificado por Roma pelo crime de sedição.

O livro não segue uma cronologia temporal rígida, mas atenta-se ao nível de importância dos fatos, por isso, é comum o autor voltar ou adiantar-se em certas ocasiões, o que gera uma necessidade extra de atenção por parte dos leitores. Ademais, a obra é dividida em vários capítulos, não sendo nenhum deles muito extenso. 

Reza Aslan procura através de uma interpretação invertida, ou seja, partindo do espectro da crucificação de Jesus em direção ao passado, chegar a conclusões o mais próximo possível da verdade real. Mesmo assim, o autor assume que em certos momentos é praticamente impossível comprovar certas suposições dos historiadores. Nesse aspecto, entre tantas dúvidas que provocam estudiosos das mais variadas ciências e dos próprios membros da Igreja, um fato pode ser dado como certo: Jesus de Nazaré foi morto e crucificado pelas autoridades romanas porque cometeu um crime contra o Estado de Roma, cujo teor se fundamentou na negação do poder real, mais do que isso, Jesus assumiu a si mesmo como Rei dos Judeus, ameaçando não só as autoridades legais, mas também o alto escalão do judaísmo.


Mais interessante torna-se o livro quando são mostrados e explicados fatos sem a acobertagem religiosa tradicional, por exemplo:

  • Jesus não teria nascido em Belém, mas em Nazaré (por isso era conhecido como Jesus de Nazaré), uma pequena aldeia inexpressiva próxima de Galileia. Os evangelhos trouxeram a ideia de que o messias nascera em Belém para adequá-la ao local de nascimento do Rei Davi.
  • Jesus não era o único que se auto-intitulava o messias, assim como ele havia inúmeros outros pregadores. Muitos deles eram mágicos ou enganadores que eram capturados e mortos pelo governo romano.
  • Jesus teria sido um discípulo de João Batista, cuja pregação ao tempo da época apresentava-se muito mais expandida e sólida. A partir dos evangelhos a imagem de João Batista foi sendo diminuída ao passo que a de Jesus agigantava-se cada vez mais, culminando nas passagens que atribuem ao João Batista a mera função de anunciar a chegada do verdadeiro messias.
  • Não há nenhuma evidência de que Pôncio Pilatos tenha agido de maneira totalmente diferente no julgamento de Jesus. Seu modo de tratar era cruel e desprezível em relação aos criminosos. É muito improvável que ele tenha dado a possibilidade de que lhe fosse trazido à presença mais um mero pregador que incomodava o governo romano.
  • Ainda em relação ao julgamento e crucificação de Jesus, as passagens que trazem a condenação pelo próprio povo judeu e não pela vontade pura e simples do governador romano (que propôs a absolvição, mas viu-se sem outra opção a não ser entregar Jesus e libertar o outro prisioneiro) podem ter sido manipuladas para que o novo movimento que se alastrava rapidamente (cristianismo) tomasse ainda mais força e acima disso rompesse os laços com o velho judaísmo. Os historiadores consideram este fato um marco naquilo que se transformaria no início da discriminação entre as religiões, pois para os cristãos foram os judeus que "crucificaram" o espírito de Deus na terra.
 
Outras polêmicas giram em torno do que aconteceu após a morte de Jesus. Tiago, seu irmão, conhecido como "o justo" continuou sua pregação e obteve grande sucesso. Paulo de Tarso, após entrar em conflito com os outros apóstolos e também com Tiago foi o maior responsável pelos contornos do Cristianismo como o conhecemos hoje, a partir do que escreveu em suas cartas e epílogos. Os estudiosos dizem que esse novo Cristianismo, moldado por Paulo, em grande parte nega as tradições do antigo judaísmo, sendo ponto de grande divergência doutrinária. 

Para quem gosta de história este é um livro recomendável, pois aguçará ainda mais a vontade de se aprofundar no assunto. É certo que conhecer a história de Jesus é diferente de aceitar Jesus, na concepção religiosa. Os dois lados podem se complementar, no entanto, também podem ser conflituosos, na medida em que nunca será possível comprovar substancialmente os milagres de cura e também o da ressuscitação. Fato é que é necessário compreender qual o legado desse ilustre personagem que viveu numa época de extrema complexidade social e mudou em definitivo o curso de toda história.

** Reza Aslan foi entrevistado recentemente pela emissora de televisão Fox News. O episódio ficou marcado pela indelicadeza da repórter que o entrevistou fazendo perguntas sobre qual a motivação de um muçulmano escrever sobre o Cristianismo. A entrevista gerou uma polêmica e tanto, vale a pena conferir, procure no youtube.







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