SNIPER AMERICANO
O livro “Sniper Americano”, lançado nos EUA no ano de 2012 e publicado no
Brasil pela editora Intrínseca, conta a história de Chris Kyle, um militar da
marinha norte-americana integrante das forças especiais Navy Seal e sua
trajetória como sniper na Guerra do Iraque, ocorrida entre 2003 e 2011. Chris
não foi apenas um sniper, foi, segundo o alto escalão das forças armadas de seu
país, o atirador mais letal de toda história dos EUA, contabilizando mais de
160 mortes oficiais. Levando-se em conta estatísticas reais da guerra, esse
número pode chegar a 250 baixas. Todas ocorreram nos 4 desdobramentos em que
Chris participou, como eram chamados os períodos em que os militares
permaneciam servindo ativamente nos campos de batalha. Porque matava tantos
insurgentes recebeu a alcunha de “Diabo de Ramadi”, sendo posta sua cabeça a um
prêmio de 20 mil dólares, por outro lado, entre seus companheiros ficou
conhecido como “A lenda”.
Nascido em 1974 no estado do
Texas, filho de um executivo de classe média e diácono, e de uma professora de
catequese, Chris ganhou seu primeiro rifle aos 7 anos e adorava usá-lo nas
fazendas por onde cresceu, atirando em alvos e caçando animais com seu pai e
irmão mais novo. Adolescente, pegou gosto pela montaria e logo desenvolveu um
estilo de vida “couboi”, como o próprio autor identifica no livro. Participava
de rodeios e campeonatos, ganhou modesta fama entre amigos e mulheres. Dessa
época sobressai o episódio em que Chris se acidenta num festival e precisa
passar por procedimento cirúrgico, colocando pinos nos pulsos, fato que quase o
excluiu definitivamente da carreira militar. Após formar-se no colégio,
ingressou numa faculdade para se tornar gestor agrícola, conquanto naquela
época já pensasse no alistamento militar, inspirado por seu gosto a armas e em
seu avô que fora aviador. Durante certo tempo trabalhou em ranchos e fazendas,
principalmente no trato com os animais. Alistado, se apresentou à Marinha em
1999 para iniciar os treinamentos.
Após passar pelos treinamentos iniciais,
conhecidos pela rigidez e esforço físico, Chris fez vários cursos de
especialização como o de sniper e orientação. Logo partiu para o seu primeiro
desdobramento no Kuwait. Em 2001 conheceu sua futura esposa Taya, que
trabalhava como representante de indústria farmacêutica. Aspecto interessante
da obra é que foram incluídas passagens em momentos específicos escritos pela
própria Taya, com o objetivo de trazer ao leitor a visão daquela cujo destino
se traduzia em esperar pelo estimado retorno de seu amor da guerra. Sentimentos
como solidão, ansiedade e raiva são recorrentes em seu relato. Ela e Chris
constantemente divergiam quanto suas prioridades. Para Chris, ser um Seal e
proteger seu país sempre vinha em primeiro lugar.
Na medida em que o tempo ia
passando, Chris foi desenvolvendo sua habilidade como atirador de elite. Na
maioria das missões, sua unidade de instalava num prédio para fazer vigília ou
proteger o avanço do grupamento de fuzileiros. Os insurgentes apareciam e Chris
os derrubava, mirando sempre em seu ponto de massa. O sniper alega por várias
vezes que o fato de ter acumulado tantas
mortes não faz dele o melhor de todos, mas apenas o cara certo no momento certo
e claro, isso só foi possível também porque teve muita sorte. Para matar, no entanto, era preciso seguir as
regras de engajamento, isso significava que existiam certos procedimentos que
deveriam ser seguidos para que inocentes não fossem mortos. Chris, por diversas
vezes, se mostra irritado com essas exigências, alegando que numa guerra não é
possível ser caridoso ou burocrático; eles estavam lá para resolver as coisas,
e isso se traduzia em matar selvagens porque eles nunca iriam mudar de opinião,
e sempre fariam de tudo para matar um americano.
Em alguns momentos nos quais teve
de dialogar com o alto escalão ou mesmo negociar com seus oficiais, Chris se
mostra intransigente e teimoso, não concordando com a ideia de que, às vezes,
os militares possam ficar semanas sem fazer nada relevante, apenas patrulhando
ou organizando missões. O que ele mais queria era entrar em ação, sentir a
adrenalina. Por toda a obra podemos observar um Chris altamente corajoso,
determinado e ciente de que a guerra existia para que um perdesse e outro
ganhasse, e que faria de tudo para proteger seus companheiros e colaborar com
seu país. Em vários momentos, podemos sentir como é o cotidiano da guerra e como
pensam seus atores. Brincadeiras são feitas nas situações mais desumanas que um
ser humano pode presenciar. Segundo Kyle, é inegável não levar em conta o tão
drástico contraste em que viviam: morte e vida, tragédia e comédia. Enquanto
isso seu relacionamento com Taya tornava-se distante e frio.
Apesar de seu ego sempre inflado
pelo sucesso de suas missões, Chris quase morreu em combate quando seu pelotão
invadiu um território cheio de insurgentes de madrugada, na cidade de Sadr. Ele
levou um tiro de raspão no capacete e outro nas costas, amortecido pelo colete.
Numa ocasião anterior, enquanto fazia vigília num prédio, o quarto em que se
encontrava foi atingido por um foguete. A parede caiu sobre sua perna, que
nunca mais foi a mesma. Outro episódio relevante do livro é a perda de dois
companheiros de pelotão de Chris, momento que o deixou profundamente triste e
abalado psicologicamente. As principais batalhas em que Chris atuou foram as de
Ramadi, Fallujah e Sadr. Em alguns momentos, Chris deixou seu esconderijo e foi
ajudar os jovens fuzileiros nas abordagens de rotina, quando entravam nas casas
dos iraquianos a procura de armas e terroristas, pois acreditava que seus
conhecimentos avançados poderiam a reduzir as baixas. Foi num desses momentos
que Chris viu morrer um jovem fuzileiro em seus braços.
Chegando de seu quarto
desdobramento, já pai de dois filhos e tendo de optar por continuar na guerra
ou assumir definitivamente seu papel na família, Chris Kyle sai da Marinha com
honras pelos serviços prestados. Uma nova vida se iniciava em casa com sua
mulher e filhos e com a criação da Craft, uma empresa de treinamentos em
segurança. Pouco tempo após escrever sua história para o livro, entretanto, Chris
foi assassinado em 2013 por um ex-veterano da guerra enquanto tentava ajuda-lo
a se recuperar de stress pós-traumático, numa fazenda. Sem nenhuma
possibilidade de se defender, o homem mais letal da guerra foi pego de
surpresa. Escapou de emboscadas e balas de fuzil, bombas e armadilhas no front,
mas não escapou da fragilidade e das tenebrosas consequências sociais
provocadas pela guerra. Seu assassino foi recentemente condenado a prisão
perpétua (2015).
Toda história contada no livro não
contém detalhes do que estava por trás das missões de Kyle, a saber, o contexto
da Guerra do Iraque, que se iniciou a partir da Operação “Iraque Livre” em
Março de 2003, cuja responsabilidade foi dada a uma coalizão de países a fim de
capturar e derrubar Saddam Hussein.
O leitor precisa estar atento ao que
representa a biografia de um Seal participante desta guerra. Pode-se dizer que
o relato é coerente com a cultura norte-americana da guerra como libertadora da
opressão, como o instrumento que levaria democracia a um povo desgovernado.
Chris se achava invencível, gostava de matar e não acreditava numa resolução
pacífica do conflito. Não poucas vezes se metia em brigas de bar e rechaçava
americanos que não entendiam a guerra ou eram contrários a ela. Fazia questão
de dizer que se pudesse mataria mais, pois assim estaria protegendo seus
companheiros e fazendo seu dever. Todas essas características mostram como é
enraizado na cultura dos EUA o mito da guerra. Chris acreditava piamente no
sucesso das missões, mas analisando todo panorama da guerra, os EUA foram
altamente prejudicados pelos seus resultados, tanto economicamente, quanto politicamente.
A população gradativamente foi se mostrando contrária a guerra, pois seus
filhos estavam morrendo e o conflito nunca acabava. O número de militares
norte-americanos no conflito é estimado em 4.300, fora aproximadamente 30 mil
feridos. Grande parte dos veteranos desenvolveram traumas psicológicos, e foi
exatamente este detalhe o causador da morte do atirador. Quão irônico se torna
essa história: um guerreiro imortal, matador a sangue frio, morto inocentemente
por uma vítima da própria indústria da guerra.

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