quarta-feira, julho 22, 2015

Sniper Americano


SNIPER AMERICANO

O livro “Sniper Americano”, lançado nos EUA no ano de 2012 e publicado no Brasil pela editora Intrínseca, conta a história de Chris Kyle, um militar da marinha norte-americana integrante das forças especiais Navy Seal e sua trajetória como sniper na Guerra do Iraque, ocorrida entre 2003 e 2011. Chris não foi apenas um sniper, foi, segundo o alto escalão das forças armadas de seu país, o atirador mais letal de toda história dos EUA, contabilizando mais de 160 mortes oficiais. Levando-se em conta estatísticas reais da guerra, esse número pode chegar a 250 baixas. Todas ocorreram nos 4 desdobramentos em que Chris participou, como eram chamados os períodos em que os militares permaneciam servindo ativamente nos campos de batalha. Porque matava tantos insurgentes recebeu a alcunha de “Diabo de Ramadi”, sendo posta sua cabeça a um prêmio de 20 mil dólares, por outro lado, entre seus companheiros ficou conhecido como “A lenda”.
Nascido em 1974 no estado do Texas, filho de um executivo de classe média e diácono, e de uma professora de catequese, Chris ganhou seu primeiro rifle aos 7 anos e adorava usá-lo nas fazendas por onde cresceu, atirando em alvos e caçando animais com seu pai e irmão mais novo. Adolescente, pegou gosto pela montaria e logo desenvolveu um estilo de vida “couboi”, como o próprio autor identifica no livro. Participava de rodeios e campeonatos, ganhou modesta fama entre amigos e mulheres. Dessa época sobressai o episódio em que Chris se acidenta num festival e precisa passar por procedimento cirúrgico, colocando pinos nos pulsos, fato que quase o excluiu definitivamente da carreira militar. Após formar-se no colégio, ingressou numa faculdade para se tornar gestor agrícola, conquanto naquela época já pensasse no alistamento militar, inspirado por seu gosto a armas e em seu avô que fora aviador. Durante certo tempo trabalhou em ranchos e fazendas, principalmente no trato com os animais. Alistado, se apresentou à Marinha em 1999 para iniciar os treinamentos.

Após passar pelos treinamentos iniciais, conhecidos pela rigidez e esforço físico, Chris fez vários cursos de especialização como o de sniper e orientação. Logo partiu para o seu primeiro desdobramento no Kuwait. Em 2001 conheceu sua futura esposa Taya, que trabalhava como representante de indústria farmacêutica. Aspecto interessante da obra é que foram incluídas passagens em momentos específicos escritos pela própria Taya, com o objetivo de trazer ao leitor a visão daquela cujo destino se traduzia em esperar pelo estimado retorno de seu amor da guerra. Sentimentos como solidão, ansiedade e raiva são recorrentes em seu relato. Ela e Chris constantemente divergiam quanto suas prioridades. Para Chris, ser um Seal e proteger seu país sempre vinha em primeiro lugar.

Na medida em que o tempo ia passando, Chris foi desenvolvendo sua habilidade como atirador de elite. Na maioria das missões, sua unidade de instalava num prédio para fazer vigília ou proteger o avanço do grupamento de fuzileiros. Os insurgentes apareciam e Chris os derrubava, mirando sempre em seu ponto de massa. O sniper alega por várias vezes que o fato de  ter acumulado tantas mortes não faz dele o melhor de todos, mas apenas o cara certo no momento certo e claro, isso só foi possível também porque teve muita sorte.  Para matar, no entanto, era preciso seguir as regras de engajamento, isso significava que existiam certos procedimentos que deveriam ser seguidos para que inocentes não fossem mortos. Chris, por diversas vezes, se mostra irritado com essas exigências, alegando que numa guerra não é possível ser caridoso ou burocrático; eles estavam lá para resolver as coisas, e isso se traduzia em matar selvagens porque eles nunca iriam mudar de opinião, e sempre fariam de tudo para matar um americano.

Em alguns momentos nos quais teve de dialogar com o alto escalão ou mesmo negociar com seus oficiais, Chris se mostra intransigente e teimoso, não concordando com a ideia de que, às vezes, os militares possam ficar semanas sem fazer nada relevante, apenas patrulhando ou organizando missões. O que ele mais queria era entrar em ação, sentir a adrenalina. Por toda a obra podemos observar um Chris altamente corajoso, determinado e ciente de que a guerra existia para que um perdesse e outro ganhasse, e que faria de tudo para proteger seus companheiros e colaborar com seu país. Em vários momentos, podemos sentir como é o cotidiano da guerra e como pensam seus atores. Brincadeiras são feitas nas situações mais desumanas que um ser humano pode presenciar. Segundo Kyle, é inegável não levar em conta o tão drástico contraste em que viviam: morte e vida, tragédia e comédia. Enquanto isso seu relacionamento com Taya tornava-se distante e frio.
Apesar de seu ego sempre inflado pelo sucesso de suas missões, Chris quase morreu em combate quando seu pelotão invadiu um território cheio de insurgentes de madrugada, na cidade de Sadr. Ele levou um tiro de raspão no capacete e outro nas costas, amortecido pelo colete. Numa ocasião anterior, enquanto fazia vigília num prédio, o quarto em que se encontrava foi atingido por um foguete. A parede caiu sobre sua perna, que nunca mais foi a mesma. Outro episódio relevante do livro é a perda de dois companheiros de pelotão de Chris, momento que o deixou profundamente triste e abalado psicologicamente. As principais batalhas em que Chris atuou foram as de Ramadi, Fallujah e Sadr. Em alguns momentos, Chris deixou seu esconderijo e foi ajudar os jovens fuzileiros nas abordagens de rotina, quando entravam nas casas dos iraquianos a procura de armas e terroristas, pois acreditava que seus conhecimentos avançados poderiam a reduzir as baixas. Foi num desses momentos que Chris viu morrer um jovem fuzileiro em seus braços.

Chegando de seu quarto desdobramento, já pai de dois filhos e tendo de optar por continuar na guerra ou assumir definitivamente seu papel na família, Chris Kyle sai da Marinha com honras pelos serviços prestados. Uma nova vida se iniciava em casa com sua mulher e filhos e com a criação da Craft, uma empresa de treinamentos em segurança. Pouco tempo após escrever sua história para o livro, entretanto, Chris foi assassinado em 2013 por um ex-veterano da guerra enquanto tentava ajuda-lo a se recuperar de stress pós-traumático, numa fazenda. Sem nenhuma possibilidade de se defender, o homem mais letal da guerra foi pego de surpresa. Escapou de emboscadas e balas de fuzil, bombas e armadilhas no front, mas não escapou da fragilidade e das tenebrosas consequências sociais provocadas pela guerra. Seu assassino foi recentemente condenado a prisão perpétua (2015).

Toda história contada no livro não contém detalhes do que estava por trás das missões de Kyle, a saber, o contexto da Guerra do Iraque, que se iniciou a partir da Operação “Iraque Livre” em Março de 2003, cuja responsabilidade foi dada a uma coalizão de países a fim de capturar e derrubar Saddam Hussein. 

O leitor precisa estar atento ao que representa a biografia de um Seal participante desta guerra. Pode-se dizer que o relato é coerente com a cultura norte-americana da guerra como libertadora da opressão, como o instrumento que levaria democracia a um povo desgovernado. Chris se achava invencível, gostava de matar e não acreditava numa resolução pacífica do conflito. Não poucas vezes se metia em brigas de bar e rechaçava americanos que não entendiam a guerra ou eram contrários a ela. Fazia questão de dizer que se pudesse mataria mais, pois assim estaria protegendo seus companheiros e fazendo seu dever. Todas essas características mostram como é enraizado na cultura dos EUA o mito da guerra. Chris acreditava piamente no sucesso das missões, mas analisando todo panorama da guerra, os EUA foram altamente prejudicados pelos seus resultados, tanto economicamente, quanto politicamente. A população gradativamente foi se mostrando contrária a guerra, pois seus filhos estavam morrendo e o conflito nunca acabava. O número de militares norte-americanos no conflito é estimado em 4.300, fora aproximadamente 30 mil feridos. Grande parte dos veteranos desenvolveram traumas psicológicos, e foi exatamente este detalhe o causador da morte do atirador. Quão irônico se torna essa história: um guerreiro imortal, matador a sangue frio, morto inocentemente por uma vítima da própria indústria da guerra.  

segunda-feira, julho 13, 2015

Zelota: a Vida e a Época de Jesus de Nazaré



O livro "Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré" escrito pelo estudioso Reza Aslan mostra, com uma linguagem clara e acessível, a vida daquele que se tornou o ponto de partida para o nascimento do Cristianismo. O autor ressalta logo de início que deve haver uma separação entre o Jesus Bíblico e o Jesus Histórico, o primeiro é fruto de uma construção teológica com o objetivo de reinventar a trajetória de Jesus para adequá-la à tradição cristã em formação; já o Jesus Histórico deve ser compreendido como um pregador revolucionário que foi crucificado por Roma pelo crime de sedição.

O livro não segue uma cronologia temporal rígida, mas atenta-se ao nível de importância dos fatos, por isso, é comum o autor voltar ou adiantar-se em certas ocasiões, o que gera uma necessidade extra de atenção por parte dos leitores. Ademais, a obra é dividida em vários capítulos, não sendo nenhum deles muito extenso. 

Reza Aslan procura através de uma interpretação invertida, ou seja, partindo do espectro da crucificação de Jesus em direção ao passado, chegar a conclusões o mais próximo possível da verdade real. Mesmo assim, o autor assume que em certos momentos é praticamente impossível comprovar certas suposições dos historiadores. Nesse aspecto, entre tantas dúvidas que provocam estudiosos das mais variadas ciências e dos próprios membros da Igreja, um fato pode ser dado como certo: Jesus de Nazaré foi morto e crucificado pelas autoridades romanas porque cometeu um crime contra o Estado de Roma, cujo teor se fundamentou na negação do poder real, mais do que isso, Jesus assumiu a si mesmo como Rei dos Judeus, ameaçando não só as autoridades legais, mas também o alto escalão do judaísmo.


Mais interessante torna-se o livro quando são mostrados e explicados fatos sem a acobertagem religiosa tradicional, por exemplo:

  • Jesus não teria nascido em Belém, mas em Nazaré (por isso era conhecido como Jesus de Nazaré), uma pequena aldeia inexpressiva próxima de Galileia. Os evangelhos trouxeram a ideia de que o messias nascera em Belém para adequá-la ao local de nascimento do Rei Davi.
  • Jesus não era o único que se auto-intitulava o messias, assim como ele havia inúmeros outros pregadores. Muitos deles eram mágicos ou enganadores que eram capturados e mortos pelo governo romano.
  • Jesus teria sido um discípulo de João Batista, cuja pregação ao tempo da época apresentava-se muito mais expandida e sólida. A partir dos evangelhos a imagem de João Batista foi sendo diminuída ao passo que a de Jesus agigantava-se cada vez mais, culminando nas passagens que atribuem ao João Batista a mera função de anunciar a chegada do verdadeiro messias.
  • Não há nenhuma evidência de que Pôncio Pilatos tenha agido de maneira totalmente diferente no julgamento de Jesus. Seu modo de tratar era cruel e desprezível em relação aos criminosos. É muito improvável que ele tenha dado a possibilidade de que lhe fosse trazido à presença mais um mero pregador que incomodava o governo romano.
  • Ainda em relação ao julgamento e crucificação de Jesus, as passagens que trazem a condenação pelo próprio povo judeu e não pela vontade pura e simples do governador romano (que propôs a absolvição, mas viu-se sem outra opção a não ser entregar Jesus e libertar o outro prisioneiro) podem ter sido manipuladas para que o novo movimento que se alastrava rapidamente (cristianismo) tomasse ainda mais força e acima disso rompesse os laços com o velho judaísmo. Os historiadores consideram este fato um marco naquilo que se transformaria no início da discriminação entre as religiões, pois para os cristãos foram os judeus que "crucificaram" o espírito de Deus na terra.
 
Outras polêmicas giram em torno do que aconteceu após a morte de Jesus. Tiago, seu irmão, conhecido como "o justo" continuou sua pregação e obteve grande sucesso. Paulo de Tarso, após entrar em conflito com os outros apóstolos e também com Tiago foi o maior responsável pelos contornos do Cristianismo como o conhecemos hoje, a partir do que escreveu em suas cartas e epílogos. Os estudiosos dizem que esse novo Cristianismo, moldado por Paulo, em grande parte nega as tradições do antigo judaísmo, sendo ponto de grande divergência doutrinária. 

Para quem gosta de história este é um livro recomendável, pois aguçará ainda mais a vontade de se aprofundar no assunto. É certo que conhecer a história de Jesus é diferente de aceitar Jesus, na concepção religiosa. Os dois lados podem se complementar, no entanto, também podem ser conflituosos, na medida em que nunca será possível comprovar substancialmente os milagres de cura e também o da ressuscitação. Fato é que é necessário compreender qual o legado desse ilustre personagem que viveu numa época de extrema complexidade social e mudou em definitivo o curso de toda história.

** Reza Aslan foi entrevistado recentemente pela emissora de televisão Fox News. O episódio ficou marcado pela indelicadeza da repórter que o entrevistou fazendo perguntas sobre qual a motivação de um muçulmano escrever sobre o Cristianismo. A entrevista gerou uma polêmica e tanto, vale a pena conferir, procure no youtube.