segunda-feira, dezembro 21, 2020
Você está na superfície?
O ser humano é um animal capaz de sentir. Refiro-me ao complexo de sentimentos que penetram naquilo que o torna humano, não àquela parte do sentir fisicamente, como o vento frio do inverno a reclamar um agasalho.
Embora seja o ser humano dotado dessa sublime capacidade de sentir, existe uma camada, grande parcela, uma grande multidão fadada a viver na superfície dos sentimentos.
Talvez o façam por mera liberalidade, talvez por lhes faltar olhos da alma.
É certo que os que o fazem por vontade própria criam uma espécie de barreira, para que possam apenas frustrar todas as potenciais farpas contra seus egos: superficialidade.
Custa-lhes um bom tempo e uma boa dose de esforço para que atinjam seu intento, mas uma vez chegando lá, o retorno é improvável.
São parcelas de população sem conexão com o mundo, mas interconectadas em razão de seu total desprezo pelo estado de coisas.
Invariavelmente, o mundo abriga muito sofrimento, injustiça e indiferença, mas apenas para aqueles que conseguem enxergá-los, e quem o faz, traz consigo um ímpeto de transformação, inocente ou até incauto.
Quem decide viver sob o manto da superficialidade pode até viver uma vida tranquila e serena, mas não percebeu que faz parte de algo maior, e que demanda consciência de humanidade.
Não me esqueci daqueles que vivem cegos de sentimento sem culpa. Alguns seres parecem padecer de uma espécie de doença que lhes impedem de sentir: memórias, lembranças, histórias, situações, viram página amarela ou retrato no fundo de gaveta qualquer.
Sentem com tamanha des-intensidade, uma pequenez como a água que bebe um beija-flor.
A escassez de sentimento faz do mundo um lugar áspero, principalmente para aqueles que sentem as dores, ouvem as músicas, buscam mudança, buscam entender porquês, construir respostas, criar uma coleção de memórias com direito a revivê-las.
Me lanço a uma suposição: a história das coisas chatas, do tempo que apenas passou, das fórmulas fechadas, e da frieza das páginas de um jornal, foram moldadas pelo des-sentir, pelos "da superfície". Também a história da desigualdade e da dominação pelo poder pode ser explica pela falta do sentir.
Já a subjetividade, os sonhos dos sonhadores, lunáticos e perseguidores, esses construíram pontes e cidades de possibilidades mais justas.
As tristezas da vida são as alegrias da arte, li algum dia desses.
Vivo muito intensamente, porque sinto intensamente, a benção de estar aqui não pode ser desmerecida: disso jamais me arrependerei.
sexta-feira, dezembro 04, 2020
NOITE
a
noite reserva sempre
o melhor e o pior
a
dor e o amor
dentro da gente
depois do labor
perfume com dor
se instala o silêncio
das mentes e almas
das massas insanas
que nas dores e aflições do mundo
vão se conectando
afundo
a noite reserva sempre
o bom e o mau
a alegria e amargura
porque do homem não se tira
a doença da ira
depois de caminhar
olhar para constatar
as indiferenças
que no fundo
carregaremos
ao deitar
a noite reserva sempre
as músicas guardadas
prontas a soltar
as lembranças do mar
a noite sim
reserva sempre
as partes descrentes
encontros do seu eu
com o seu já foi
e com o seu quem será
a noite reserva
desde que só
o homem presente
em sua própria mente
a certeza iminente
de que ficará
SÓ
para sempre
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