O ser humano é um animal capaz de sentir. Refiro-me ao complexo de sentimentos que penetram naquilo que o torna humano, não àquela parte do sentir fisicamente, como o vento frio do inverno a reclamar um agasalho.Embora seja o ser humano dotado dessa sublime capacidade de sentir, existe uma camada, grande parcela, uma grande multidão fadada a viver na superfície dos sentimentos.
Talvez o façam por mera liberalidade, talvez por lhes faltar olhos da alma.
É certo que os que o fazem por vontade própria criam uma espécie de barreira, para que possam apenas frustrar todas as potenciais farpas contra seus egos: superficialidade.
Custa-lhes um bom tempo e uma boa dose de esforço para que atinjam seu intento, mas uma vez chegando lá, o retorno é improvável.
São parcelas de população sem conexão com o mundo, mas interconectadas em razão de seu total desprezo pelo estado de coisas.
Invariavelmente, o mundo abriga muito sofrimento, injustiça e indiferença, mas apenas para aqueles que conseguem enxergá-los, e quem o faz, traz consigo um ímpeto de transformação, inocente ou até incauto.
Quem decide viver sob o manto da superficialidade pode até viver uma vida tranquila e serena, mas não percebeu que faz parte de algo maior, e que demanda consciência de humanidade.
Não me esqueci daqueles que vivem cegos de sentimento sem culpa. Alguns seres parecem padecer de uma espécie de doença que lhes impedem de sentir: memórias, lembranças, histórias, situações, viram página amarela ou retrato no fundo de gaveta qualquer.
Sentem com tamanha des-intensidade, uma pequenez como a água que bebe um beija-flor.
A escassez de sentimento faz do mundo um lugar áspero, principalmente para aqueles que sentem as dores, ouvem as músicas, buscam mudança, buscam entender porquês, construir respostas, criar uma coleção de memórias com direito a revivê-las.
Me lanço a uma suposição: a história das coisas chatas, do tempo que apenas passou, das fórmulas fechadas, e da frieza das páginas de um jornal, foram moldadas pelo des-sentir, pelos "da superfície". Também a história da desigualdade e da dominação pelo poder pode ser explica pela falta do sentir.
Já a subjetividade, os sonhos dos sonhadores, lunáticos e perseguidores, esses construíram pontes e cidades de possibilidades mais justas.
As tristezas da vida são as alegrias da arte, li algum dia desses.
Vivo muito intensamente, porque sinto intensamente, a benção de estar aqui não pode ser desmerecida: disso jamais me arrependerei.